Capítulo 15
Sonho de um Dia de Inverno

Bruno percebe que Lucas está completamente distraído cantarolando e rapidamente abre a grade do chão com os pés e empurra sua vítima no fosso. Lucas percebe o movimento...
  
<Lucas> Chefinho, o que você está fazendo?
<Bruno> Estagiário, você não deve dirigir a palavra ao seu superior fora do local de trabalho.
<Lucas> Mas eu não sou mais estagiário. A Jhacy me promoveu para assistente júnior de office-boy.
<Bruno> E seu salário aumentou?
<Lucas> Não. Em vez de me dar um aumento, ela me promoveu. Toda empresa faz isso.
<Bruno> E você nem foi capaz de pegar aqueles papéis que eu te pedi. Vai ser rebaixado outra vez...
<Lucas> Bem... Alegria de pobre dura pouco...

Enquanto isso, na hípica, Griselda espera atenciosamente a resposta de Gregório...

<Griselda> Mas vai dizer qual cavalo ganhou ou não?
<Gregrório> Só um momento, estou calculando a umidade relativa do ar. Senti uma gota líquida e queria saber se é chuva ou uma ave irrepciosa.
<Griselda> Fui eu que cuspi quando fiz a pergunta!
<Gregório> Ah, certo... Foi o Pangaré Alado que venceu a corrida.
<Griselda> Mesmo? Que ótimo! Eu estou rica! Apostei meu dinheirinho nele! Minha intuição funciona muito bem.

Na casa dos Steinberg, a falsa Dulce Castilho encara Ana...

<Mulher> Olha aqui filhinha, eu vou te dar uma bolacha na cara!
<Ana> De morango ou de chocolate?
<Mulher> Fofa, não me provoque não... Chocolate engorda muito.
<Ana> Eu não tenho medo de uma criatura como você.
<Mulher> Aliás, filhinha, você é como uma escola fechada.
<Ana> Como assim?
<Mulher> Não tem classe! Fica denegrindo as minha opção. E ainda por cima não corta as unhas...
<Ana> Realmente eu deixo elas mais compridas...
<Mulher> E pra que servem essas garras, fofa? Para escalar árvores e caçar predadores?
<Ana> Claro que sim, as onças são animais poderosos.

No escritório de advocacia "Jhacy, a Indomável & Associados", Lucas entra na sala carregando os baldes de água. Ele deixa os recipientes no banheiro e encontra Jhacy na sala de café.

<Lucas> Chefinha, o que você está bebendo?
<Jhacy> Não sei, mas isso limpa bem o vaso sanitário.
<Lucas> Espera aí... Isso é verde, é grudento, é fedido... Só pode ser a água do filtro.
<Jhacy> Acho que foi lá que eu peguei. Mas a água de Guadalajara é muito pior. Aqui vocês costumam chamar de "lodo".
<Lucas> Eu encontrei o seu Bruno no estacionamento. Ele estava meio estranho.
<Jhacy> E a Dóris, já voltou do mercadinho?
<Lucas> Ainda não. Mas ela sempre aproveita para regar as plantinhas de café que ela semeou na pracinha. Qual cavalo ganhou a corrida?
<Jhacy> Foi o Pangaré Alado. Até o locutor da televisão ficou surpreso.
<Lucas> A Dóris tinha apostado nesse cavalo.
<Jhacy> Bem, eu vou sair um pouco para fazer umas comprinhas. Agora que sou rica vou abandonar as lojas de 1,99 para freqüentar as lojas de 4,99.

Na hípica, Gregório e Griselda descem as escadas eufóricos com a vitória do Pangaré Alado.

<Gregório> Bem, eu não consigo parar de rir.
<Griselda> Estou vendo, parece que dormiu com um cabide na boca.
<Gregório> Fiquei muito contente pelo estimado eqüino que a senhora apostou.
<Griselda> Eu nem sei o que vou fazer com todo o dinheiro.
<Gregório> Irá aparecer uma boa parcela de inevitáveis pretendentes.
<Griselda> Mas eu acho que já encontrei uma carne de primeira. Não quero nenhum outro frango desossado...

Enquanto isso, Ana e a falsa Dulce continuam a nobre discussão...

<Mulher> Sua mocréia!
<Ana> Já é a quinta vez que você me chama disso. Tenta ter outra idéia, mas cuidado para não enfartar...
<Mulher> Olha aqui, filhinha, eu vou arrancar seus pulmões e seus estômagos!

 
A cover da Dulce mira o punho em Ana, mas algo desvia seu olhar...
 
<Mulher> Que luminária linda é aquela?
<Ana> É uma peça muito rara. Te vendo por um preço baratinho. E a lâmpada você leva de graça.
<Mulher> Ai fofa, vai combinar direitinho com o pôster do Tony Ramos que eu tenho na minha sala de depilação.
<Ana> Claro, vai ficar um arraso. Tenho mais um monte de móveis pra te mostrar.

No escritório, Lucas aproveita a ausência de Jhacy para se divertir.

Ele vai mudando os canais e encontra o noticiário...

Atenção investidores do mercado financeiro! As ações de café despencaram bruscamente nos últimos minutos. As quedas na comercialização do produto afetam todo o setor. Ainda não se sabe o que causou a diminuição na venda de café, mas a situação está caótica.

Lucas fica surpreso com a notícia. Ele olha o relógio e estranha que Dóris não voltou ainda. No mesmo momento, surge uma saudade intensa de Clara. Ele decide procurar o número de telefone dela.

Na hípica, Gregório e Griselda bebem um drink no barzinho.

<Gregório> As suas rugas ficam em estado êxito de glaciação quando você suga o canudinho da sua laranjinha light.
<Griselda> E seu jeito de falar é muito lindo. Me lembra muito alguém que vive me chamando de senhora...
<Gregório> Seus olhos são como um abismal platelminto nadando no esôfago de uma ectrótica bailarina.
<Griselda> Ah... Como o senhor fala bonito. O último velhinho que me cantou disse que meus olhos eram uma convidativa piscina de pudim de chocolate.

  
Eles se olham atentamente, cada vez se aproximando mais. Gregório sorri estaticamente. Griselda abre a boca. A dentadura cai. Gregório empresta sua dentadura reserva. Eles se beijam...

Na casa dos Steinberg, Clara dorme como um anjo em sua habitual soneca.

Ela começa a mover rapidamente os olhos. Várias imagens percorrem sua mente. Várias idéias se misturam...

Clara começa a ter um sonho...

<Dóris> Meu fofinho... Onde eu estou?
<Carlos Henrique> Dona Dóris, você está em uma outra dimensão.
<Dóris> Mas o que aconteceu? Como vim parar aqui?
<Carlos Henrique> Calma... No início é difícil compreender.
<Dóris> Eu estou confusa.
<Carlos Henrique> Eu também estava. Mas só aqui eu percebi seu sentimento. E eu sinto o mesmo por você.
<Dóris> Como assim? Eu não acredito...
<Carlos Henrique> Nunca é tarde para a gente amar... Temos toda a eternidade...
<Dóris> Ai, que lindo. Me deu vontade de assistir Ghost outra vez.

O telefone toca. As imagens se embaralham na mente de Clara. Aos poucos ela vai despertando do sono até recuperar a total consciência. A garota levanta e vai até o corredor atender o telefone.

<Clara> Alô?
<Lucas> Oi meu docinho... Estava com saudades de você...
<Clara> Hihihi... Eu também Lucas. Eu tava tirando uma soneca e tive um sonho muito estranho com meu papai.
<Lucas> Pois é... Eu nem sei quem é meu pai e minha mãe... Nem posso sonhar com eles...
<Clara> Mas a cegonha que te trouxe não encontrou seus pais?
<Lucas> Eu sou adotado. Fui criado pela minha dinda Hilde. Ela até tentou encontrar meus pais, mas não conseguiu...
<Clara> Que ruim, mas agora eu vou cuidar bem de você, hihihi...

Na hípica, Griselda se aproxima eufórica do guichê para receber seu prêmio.

<Griselda> O quê? O meu prêmio é só isso? Mas não dá pra comprar nem dez pacotes de Maizena.
<Moça> Sim. A senhora apostou só alguns centavos.
<Griselda> Mas eu paguei o meu dinheirinho.
<Moça> O prêmio é proporcional à aposta realizada. Quem não sabe disso deve ser de outro planeta.
<Griselda> Então eu sou uma marciana. Na próxima vez vou apostar no bingo. Lá pelo menos tem bolo de graça.

No centro da cidade, Jhacy encontra a loja de 4,99. Ela sorri e vai até lá fazer algumas compras.

<Jhacy> Olá... Eu estou com vontade de comer burritos. Você tem?
<Atendente> Não tenho. Só tenho micose mesmo...
<Jhacy> Mas pelo seu porte físico, você parece que consome a loja inteira.
<Atendente> O freezer sempre quebra e eu tenho que comer tudo para não estragar.
<Jhacy> Sabe, eu sou uma moça rica agora e estava com vontade de gastar.
<Atendente> Moça rica? E por que está vestida desse jeito?
<Jhacy> É uma roupa especial que só as pessoas inteligentes conseguem ver.
<Atendente> Adorei seu visual! Bem, essa é uma loja para classe média baixa. Mas abriu a loja de 9,99 no final da rua. Vai lá...

Enquanto isso, na hípica, Griselda e Gregório aproximam-se da porta de saída. Eles encontram James, que termina de conversar com uma moça ruiva e se despede dela. Griselda cumprimenta James.

<Griselda> Essa era aquela moça que você estava observando antes?
<James> Sim senhora...
<Griselda> Ah, seu safadinho... Vocês dois estão namorando?
<James> Não senhora...
<Griselda> Já sei, vocês estão só ficando. Não conhecia esse seu lado sedutor James.

O mordomo fica vermelho. Eles se despedem e vão embora.

No centro da cidade, Jhacy sai da loja de 4,99 e resolve seguir o conselho da vendedora. Bem perto dali, a gangue da Yara observa uma foto...

<Mariazinha> Tipo assim meus bichos, eu tô achando que a mocréia da foto é aquela magricela de calcinha ali.
<Zezinho> Soh...
<Mariazinha> Então a gente precisa catar ela, morô?
<Sandrinha> Soh...

Eles se aproximam subitamente de Jhacy. Os rapazes agarram a moça e a empurram para dentro de um fusca, saindo em disparada do local.

Na casa dos Steinberg, Ana confere o dinheiro da venda dos móveis. Bruno chega para pegar a cópia dos papéis. Ele estranha a casa meio vazia.

<Bruno> O que aconteceu aqui?
<Ana> Eu estou fazendo um saldão pra conseguir dinheiro. Esses móveis estão velhos mesmo...
<Bruno> Aliás, que bom que eu te encontrei. Agora a senhora não escapa. Quem é o meu pai?

No escritório, Lucas está distraído assistindo televisão quando toca o telefone. Ele vai atender...

<Hilde> Oi meu garoto.
<Lucas> Olá dinda. Tudo bom?
<Hilde> Sim, eu tenho uma ótima notícia. Eu estive pesquisando sobre seus verdadeiros pais e descobri quem é sua mãe. Acho que você já ouviu falar dela...

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