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Capítulo
4
Casos do Passado

Alexandre
lembra Bruno que eles têm um assunto importante para tratar...
<Alexandre> O seu pai fez um testamento alguns meses antes de
morrer. Ele comentou comigo sobre o assunto, mas nunca disse exatamente
com quem iria deixar a fortuna.
<Bruno> Pois é, então chegou a hora da gente abrir o testamento.
<Alexandre> Mas este é o problema... O Carlos Henrique deve ter
deixado o testamento no cofre da biblioteca, só que ele era o único que
tinha a chave.
<Bruno> E, precavido do jeito que ele era, escondeu muito bem essa
chave.
<Alexandre> Com certeza... Mas talvez ela esteja no guarda-volumes
do banco.
Bruno fica pensativo, tentando imaginar os possíveis lugares onde o pai
poderia ter deixado a chave. Alexandre procura sua agenda com o telefone
do banco. Ele se lembra que esqueceu a agenda na casa dos Steinberg
durante o velório e chama a secretária.

<Alexandre>
Dona Dóris, cadê o estagiário?
<Dóris> O Lucas?
<Alexandre> Desde quando estagiário tem nome?
<Dóris> Ele não veio ainda, disse que iria catar coquinho no
asfalto, como o senhor havia mandado...
<Alexandre> Não acredito... Outro dia ele tinha saído pra ver se
eu estava na esquina. Tá, então vai você mesma buscar minha agenda na
casa dos Steinberg.
<Dóris> Eu?
<Alexandre> Sim, ou vou esconder sua colherinha de café.
<Dóris> Não precisa me ameaçar, já estou indo...
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Enquanto isso, Lucas permanece
sem fôlego na cadeia, olhando para Yara paralisado. Ele tenta dizer
alguma coisa.

<Yara>
Putz, tu deve estar cheio da cana para ficar assim...
<Lucas> Ma... Mas... Mas então você é a verdadeira morena de
tirar o fôlego...
<Yara> E tu parece uma samambaia azul.
<Lucas> Eu estou apaixonado por você, até trouxe um presente.
Yara pega o pacote, meio desconfiada, e logo depois abre o embrulho.

<Yara>
Shampoo anti-caspa? Tu acha que eu tô com caspa?
<Lucas> Claro que não... Talvez uns piolhos, caspa nunca!
<Yara> Piolho eu sempre tive alguns mesmo, mas sou muito cheirosa.
<Lucas> Posso cheirar seu cabelo?
<Yara> É fogo na bomba! Só se tu pagar as fiança pra eu cair fora
deste erê.
<Lucas> Meu porquinho tá mais vazio que o congresso na sexta-feira.
<Yara> Então sai fora seu coió que está tudo acabado entre nós.
<Lucas> Tudo o quê? |
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Enquanto isso, alguém toca a
campainha na casa dos Steinberg. James vai abrir a porta. É a Dona Dóris.
Ana desce as escadas.

<Ana>
James, já consertaram o sistema de aquecimento dos banheiros?
<James> Ainda não senhora, o técnico deve passar aqui mais tarde.
<Dóris> Bom dia Dona Ana, eu vim...
<Ana> Espera aí... Você está me lembrando algo...
Dóris começa a ficar nervosa.
<Dóris> Algo o quê?
<Ana> Deixa eu pensar... Seu olhar, seu jeito, seus sapatos, a forma
da sua roupa...
<Dóris> Como assim? A cor da minha roupa também?
<Ana> Não, a cor da roupa lembra que você é viciada em café...
Ah, já sei... Sua voz...
<Dóris> Voz?
<Ana> O jeito como você fala é parecido com o daquela cantora
Dulce Castilho. Ah... Então foi ela que deixou aquela ameaça no meu
celular. Matei a charada!
<Dóris> Não estou entendendo nada.
Ana leva Dóris até a sala principal e a convida para se acomodar no
sofá.

<Ana>
Bem, estou precisando desabafar mesmo... Isso já virou quase uma lenda na
família. Vou contar toda a história... |
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"Era
uma vez.... Ou melhor, há muito tempo atrás, na década de 70, eu estava
em dúvida se ia casar com um czar na Lituânia ou se ia completar meus
estudos na região de Trento na Itália. Não conseguia decidir, era algo
que iria determinar minha vida. Um dia eu conheci no disque-amizade o
homem que mudou tudo."

<Ana>
Como você é?
<Carlos> Normal, duas pernas, dois braços, dois olhos, uma boca,
duas orelhas...
<Ana> Que phoda... Não era bem isso que eu queria saber...
<Carlos> Ah, já sei. Você se amarra num deficiente phísico.
"Conversamos por algum tempo e notamos que tínhamos coisas em
comum."
<Ana> Que coincidência, aqui onde estou o piso também é preto e
branco, parede vermelha...
<Carlos> Brasa mora, será que isso é um aviso de Deus?
<Ana> Bem, um telegrama seria mais prático...
"Quando notamos, a gente estava no mesmo lugar, na lanchonete do
Studio Phoenix."

<Ana>
Vamos continuar conversando por telephone ou vamos phalar ao vivo?
<Carlos> As empresas telephônicas ainda não foram privatizadas,
acho que é melhor ao vivo.
"Então eu me aproximei dele..."
<Ana> Baixinho, né...
<Carlos> É impressão sua...
<Ana> Quanto tu ganha?
<Carlos> Muito pouco...
<Ana> Mas não phaz mal, acho que dá para aproveitar pelo menos a
carcaça.
"Enquanto conversávamos, a famosa cantora Dulce Castilho nos olhava
de longe. Ela era muito linda e fazia um grande sucesso na época. Tinha
um programa de rádio com muita audiência, transmitido ao vivo do andar
superior do Studio Phoenix."

"O
Carlos Henrique tinha comentado que estava namorando ela, mas como os anos
70 era época do 'ninguém é de ninguém', ele estava procurando novas
experiências. A Dulce ficou um tempo observando e depois se
aproximou..."
<Dulce> Oi amor, o que você conversa tanto
com a Dona oncinha?
<Carlos> Eu...
<Ana> Dona oncinha? Nem fala nada, eu não dirijo a palavra para
quem sai de casa vestindo a cortina do banheiro...
<Carlos> Bem...
<Dulce> Olha aqui, eu posso cantar o que quiser com as mãos nas
costas...
<Carlos> E...
<Ana> Sei, mas o Carlos me disse que você obriga ele a comer batata
frita sem sal e com guardanapo.
<Carlos> Mas...
<Dulce> É questão de higiene, para evitar os vermes...
<Carlos> ...
<Ana> Só resta uma coisa a phazer para saber quem de nós phica com
ele: par ou ímpar.
<Carlos> O quê? Eu não acredito mesmo! Duas mulheres me
disputando? Papai Noel recebeu minha carta...

"A
Dulce acabou vencendo. Ela tinha escolhido ímpar. Mas eu não desisti.
Disse que o Ronnie Von estava no banheiro querendo fazer um dueto com ela.
A Dulce entrou lá, tranquei a porta por fora, peguei o Carlos Henrique,
coloquei ele no porta-malas do fusca e vim para cá. Nunca mais tive notícias
dela..." |
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<Dóris>
Que lindo... Me deu vontade de assistir Terra Nostra outra vez.
<Ana> Bem, continuando, hoje eu encontrei um recado no meu celular,
algo como "o primeiro já foi, você pode ser o próximo". Eu
achei a voz familiar. E quando você entrou aqui hoje e disse "Bom
dia", logo reconheci seu jeito de falar. É muito parecido com o da
Dulce. Lembrei dela. Foi ela que deixou o recado.
<Dóris> Nossa... Será que ela quer se vingar?
<Ana> Nem sei, estou muito aflita. Se pelo menos eu soubesse onde
está a Dulce Castilho...
<Dóris> Tenta descobrir de onde veio a ligação que deixou a
mensagem no seu celular.
Ana acha a idéia boa e liga para a companhia telefônica. A atendente
informa que não é possível localizar o número da chamada de recado de
secretária eletrônica.
<Dóris> Eu tenho um amigo na polícia que
pode checar umas informações e tentar descobrir onde está a Dulce. Vou
telefonar para ele. |
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Enquanto isso, Clara ouve
outra estória da avó no quarto de Griselda.

<Griselda>
Então a bruxa instalou uma antena parabólica no castelo, encomendou um
livro de magia para os duendes do Shoptime e assinou o canal exclusivo da
Disney para o filho bastardo do rei e da camponesa.
<Clara> Nossa vovó! Que final estranho.
<Griselda> Estes livros que vem de brinde com a revista de programação
da tv só tem propaganda.
<Clara> Por que a camponesa não gostava do filho dela?
<Griselda> Ela gostava sim, mas o filho tinha vergonha da mãe dele.
<Clara> Vó, o papai tinha vergonha de você?

<Griselda>
Clara, você não é mais uma criança, realmente está crescendo e começando
a observar as coisas... Ele foi meu único filho, um ótimo menino. Era um
pouco lento, mas tirava nota boa na aula. Eu sempre tive este jeito mais
simples e humilde. O Carlos queria riqueza, poder. E ele conseguiu tudo
isso depois de casar com sua mãe. O seu pai tinha vergonha de mim sim. Ele
me escondia dos amiguinhos. Depois me escondia dos colegas da faculdade.
Ele até não queria que eu fosse no seu próprio casamento.
<Clara> Nossa... Por que isso vó?
<Griselda> Ele não aceitava este meu jeito rural de ser. E eu
sofria muito com isso...
Griselda quase começa a chorar. Mas ela observa os olhos reluzentes da
neta e, por um instante, percebe que a vida é feita de vários retalhos
diferentes, costurados uns nos outros. Alguns são mais frágeis, outros são
fortes. Alguns são feios e apagados, porém importantes. E cada um destes
retalhos é apenas um pedacinho de uma grande colcha, que representa uma
vida inteira... |
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Enquanto isso, na prisão,
Yara recebe uma agradável notícia...

<Yara>
Alguém pagou mesmo as fiança? Não é fubá não?
<Policial> Sim, até deu um carnê do baú com duas prestações
pagas para cada policial.
<Yara> É fogo na bomba! Até que enfim vou cair fora deste troço.
Não agüentava mais esta música sertaneja...
<Policial> Por que você não desligou o rádio?
<Yara> Bem... Mas quem foi o loqui que pagou a bufunfa? |
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Na casa dos Steinberg, Clara
desce as escadas e vai até a biblioteca guardar o livro. Ela encontra
James.

<Clara>
O que você está fazendo James?
<James> Nada senhora.
<Clara> Que papel amarelo é este que você está tentando esconder? |
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Dóris termina de conversar
com seu amigo policial e desliga o telefone. Ela não consegue conter o
nervosismo. A criada entra na sala.

<Criada>
O que houve?
<Dóris> Eu descobri algo impressionante. A Dulce Castilho faleceu há
dez anos atrás. Preciso dizer isso para a Ana...
A criada não entende a situação, mas sai desesperada procurando a
patroa pela casa, junto com Dóris. As duas vão até o quarto de Ana e
percebem que a porta do banheiro está emperrada. Elas sentem um forte
calor vindo por baixo da porta. Dóris tenta falar com Ana, mas ela não
responde. As duas ficam apavoradas e arrombam a porta. Um vapor muito
quente sai de dentro do cômodo.

<Dóris>
Dona Ana?
<Criada> O que houve?
<Dóris> Ela não está respirando... |
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