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Capítulo
1
O Início do Fim

Início da
tarde. Em sua ampla residência, Carlos Henrique descansa na biblioteca,
ouvindo música clássica, lendo o jornal e relembrando o passado. A suave
música parece massagear o corpo, purificando a última hora de sua vida.
Ele estica as pernas, vê todos os livros ao seu redor, mas algo chama a
atenção: um bilhete amarelo sobre a mesa de xadrez. Carlos levanta-se da
poltrona e lê o bilhete. Ele fica aflito, abandona a biblioteca e sai de
sua casa.
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Alguns
minutos depois Carlos Henrique chega ao parque da cidade. O coração
quase pula do corpo, o suor se intensifica cada vez mais. Ele se aproxima
de uma clareira entre as árvores. O local, refúgio comum de namorados e
velhinhas perdidas, ficaria manchado pelo ódio. Um vulto se aproxima.
Carlos Henrique observa a pessoa caminhando entre as árvores.
<Carlos Henrique> O que você veio fazer aqui?
Não estou entendendo.

O vulto mira
uma arma para Carlos. Ele arregala os olhos e dá um último suspiro. O
som do tiro espalha-se pelo ar, assustando as corujas e as lhamas. A vida
acaba, a alma parte para sempre. O corpo cai sobre o chão. Sangue se
mistura com a terra. Aquela famosa frase se confirma: "da terra todos
vieram e para a terra todos voltarão". A pessoa percebe que concluiu
seu trabalho e sorri vendo o cadáver estirado na grama.
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O tempo passa. Os ponteiros do
relógio correm sem parar. Algumas horas se vão. Na casa da família
Steinberg, o mordomo limpa a sala quando toca a campainha. Ele vai atender
a porta.

<Ana>
James, me ajuda com estas sacolas.
<James> Sim senhora.
<Ana> Cadê o Carlos Henrique?
<James> Acho que seu marido saiu senhora.
<Ana> Ele foi ao médico de vermes novamente? Será que ele esqueceu
que hoje é o dia das nossas bodas de prata? É a maior festa que a família
Steinberg já deu. Daqui a algumas horas os mortos de fome devem estar
chegando.
<James> Bem, senhora, tenho uma notícia desagradável. Um senhor da
clínica da Yara telefonou avisando que ela fugiu novamente.
<Ana> Era só o que faltava... Essa minha filha é uma desmiolada. |
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Enquanto isso, no escritório
de advocacia "Steinberg & Associados" a secretária Dóris
parece estar em transe. Um retrato na parede atrai toda sua atenção e
seus pensamentos.

<Dóris>
Ah... meu fofinho... Eu ainda te amo Carlos Henrique...
Inesperadamente, Alexandre entra na sala. Dóris,
sem perceber, continua sonhando acordada, olhando para o infinito.
<Alexandre> Eu preciso daqueles relatórios do
mês passado... Dona Dóris?
<Dóris> Eu não devia ter feito aquilo...
<Alexandre> O que você fez?
Dóris desperta do transe e percebe a presença de
seu chefe.

<Dóris>
Eu... eu... eu não fiz nada não... É que eu derrubei sem querer
cafezinho ontem no seu Carlos Henrique.
<Alexandre> É melhor ficar mais atenta no seu trabalho Dona Dóris.
E os relatórios do mês passado?
<Dóris> Já vou pegar!
<Alexandre> Ah, e cadê aquele estagiário incompetente?
<Dóris> O Lucas foi comprar café em pó e já volta.
Dóris entrega os relatórios para Alexandre. Ele
vai para sua sala, mas não consegue tirar da cabeça aquilo que ouviu
pouco antes de entrar no escritório: Dóris ama Carlos Henrique.
Alexandre fica surpreso por nunca ter percebido isso antes. Agora aquela
calcinha na gaveta de Dóris com o nome bordado "Carlos
Henrique" fazia sentido. |
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No outro lado da cidade, na
casa dos Steinberg, Ana ainda não se conforma com a fuga de Yara.

<Ana>
Que bom que você chegou meu filho!
<Bruno> Oi mãe...
<Ana> A Yara fugiu da clínica novamente.
<Bruno> Ela não se cansa nunca? Isso já está virando tradição.
<Ana> Não entendo por que ela não consegue largar estas malditas
drogas.
Ana sempre se culpou pelo destino da filha. Yara já tinha sido internada
diversas vezes em clínicas de recuperação de drogados, mas sempre
escapava. Parecia que ela não queria ser ajudada. Gostava de ficar
isolada no seu mundo de intensa fumaça.
<Ana> Mas, mudando de assunto, como foi sua
tarde?
<Bruno> Valeu a pena estudar tanto para a prova de Legislação.
Acho que fui bem.
<Ana> Ah Bruno... Você é o melhor aluno da classe. Irá ser um ótimo
advogado, do jeito que seu pai sempre sonhou...

Enquanto
a mãe abraça o filho, o telefone toca. Bruno vai atender, resmunga
algumas palavras e desliga. O olhar fica triste em um instante. A respiração
diminui. Uma péssima notícia havia chegado.
<Bruno> Mãe, o pai foi encontrado em um
parque.
<Ana> Como assim? Os vermes afetaram as pernas dele outra vez?
<Bruno> Não, é muito pior...
<Ana> Os vermes atacaram o cérebro?
<Bruno> Não mãe... Alguém matou o pai. Ele morreu...
Ana perde os sentidos, tudo ao seu redor escurece. Ela desmaia. |
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No mesmo momento, no escritório,
o estagiário finalmente chega com os pacotes de café.

<Dóris>
Finalmente você chegou Lucas. Por que demorou tanto?
<Lucas> Desculpa, eu vi um espelho no caminho.
<Dóris> Puxa, eu já estava quase tomando água.
<Lucas> Cruz credo. Esta água aí já deve estar com a décima geração
de mosquitos da dengue.
<Dóris> O seu Alexandre perguntou por você.
<Lucas> O meu querido chefinho? Ele quer massagem entre os dedinhos
novamente?
<Dóris> Nem sei, mas deixa eu preparar um cafezinho. A minha família
Oliveira é totalmente viciada em café.
<Lucas> E a minha família Sloboda é viciada em novela. Até o meu
peixe se chama Odete Roitman.
<Dóris> Que bom... Mais alguma novidade?
<Lucas> Você nem imagina quem eu encontrei na rua hoje... |
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No andar superior da casa dos
Steinberg, Griselda conta mais uma estória para Clara, como faz todas as
tardes. A avó sempre permanece ao lado dela, tentando entreter a vida
quase parada da neta.

<Griselda>
E então a Branca de Neve, vestindo meias Vivarina, matou o lobo com uma
faca Ginsu e depois fez ginástica no Ab Isolator para ficar em forma para
o príncipe. E todos viveram felizes para sempre.
<Clara> Nossa vovó! Que final estranho.
<Griselda> Estes livros que vem de brinde com o jornal só tem
propaganda.
<Clara> Por que a Branca de Neve é boa e o lobo é ruim?
<Griselda> Ai, como você é inocente minha netinha. Essa estória
até me lembra você e sua irmã. São idênticas na aparência, mas uma
é um anjo inocente. A outra é uma peste do mau.
<Clara> E qual delas eu sou?
<Griselda> Hahaha... O anjo é claro. Se todos fossem iguais a você
o mundo seria bem mais puro.
<Clara> Vó, eu tô com fome. Vou pegar um iogurte na cozinha.
A neta sai do quarto e James, checando se não há
ninguém por perto, entra rapidamente.

<Griselda>
O que você está fazendo aqui no quarto da Clara?
<James> Eu vim falar com a senhora.
<Griselda> É perigoso... Mas você fez o que eu pedi? |
Clara desce as escadas e chega
à sala.
<Clara> O que aconteceu com a mamãe?
<Bruno> Ela desmaiou.
<Clara> Por que as pessoas sempre desmaiam no sofá?
Ana começa a acordar.
A imagem vai voltando a se formar na retina. Os pensamentos se organizam
novamente. Em alguns minutos ela volta a si e se recupera por completo.
Inesperadamente alguém invade a sala.

<Ana>
Yara Ivana, o que você está fazendo aqui?
<Yara> E aí seu bando de frouxo! Estavam com saudade da poderosa?
<Clara> Mãe, o que ela está segurando?
<Yara> Putz, a maloqueira da casa já aprendeu a falar? É uma arma
sua jumenta! Agora quem manda na área sou eu! É fogo na bomba! |
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